Mesmo com as principais usinas hidrelétricas do Brasil no fim do período de chuvas (1º de dezembro a 30 de abril), com o nível mais baixo de água nos reservatórios em 12 anos, economistas e engenheiros especialistas no setor energético não acreditam em racionamento de energia ou apagões. O quadro de 2001, quando os reservatórios ficaram ainda mais vazios do que os atuais, não deverá se repetir.

Segundo dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o nível de armazenamento de água nas usinas de Sudeste/Centro Oeste e Nordeste anteontem, último dia do período de chuvas, alcançou 62,55% e 48,93%, respectivamente. Juntas, essas usinas representam 90% de toda a produção de energia das hidrelétricas do país.
Este baixo armazenamento de água é devido à falta de chuva no período considerado ideal para o reabastecimento das usinas. Por conta disso, desde outubro do ano passado as usinas térmicas estão a todo vapor, levando inclusive o governo a anunciar em fevereiro deste ano que deixará as usinas térmicas à base de óleo e carvão ligadas até novembro desse ano.
“É quase um crime de lesa pátria dizer que o país não tem potenciais hidráulicos para serem explorados", diz especialista
Na opinião do engenheiro Ivo Pugnaloni, presidente da consultoria Enercons e presidente da Associação Brasileira de Fomento às Pequenas Centrais Hidrelétricas (ABRAPCH), não haverá racionamento de energia, pois as usinas térmicas, de custo mais caro, conseguirão suprir a demanda de energia. No entanto, para o engenheiro, a substituição das hidrelétricas pelas termelétricas é o grande problema.
“Não acredito em racionamento de energia porque o governo tem 14 mil MW (megawatts) nas usinas térmicas. Porém, o racionamento não é a pior coisa que poderia acontecer, ao contrário do que muita gente pensa. Racionamento é algo que ocorre uma vez em determinado período do ano, é uma desgraça eventual. Pior do que isso é a desgraça permanente de dependermos de termelétricas para suprir um sistema energético do tamanho brasileiro e ter de pagar uma das energias mais caras do mundo”, critica Pugnaloni.
O engenheiro estima que em 2014 o Brasil poderá ocupar a vice-liderança do ranking de energia mais cara do mundo, ficando atrás apenas da Itália. Se isto de fato ocorrer no próximo ano, segundo Pugnaloni, será por “culpa da falácia de que o Brasil esgotou seu potencial hidráulico”.
“É quase um crime de lesa pátria dizer que o país não tem potenciais hidráulicos para serem explorados. Apenas em PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas) temos 9 mil MW para serem construídos”, ressalta Pugnaloni, que defende a construção de mais usinas hidrelétricas no Brasil: “Implica em muito menos problemas ambientais e humanos do que é dito por aí. Nossas usinas hidrelétricas para serem implantadas necessitam de projetos ambientais elaborados segundo a mais rigorosa legislação ambiental do mundo e, se não forem cumpridos, não ganham licença. As populações indígenas e que vivem em regiões onde com potencial para construção de hidrelétricas poderiam se favorecer das mesmas”, opina.
Já o economista e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) José Bonifácio Amaral Filho, que também não acredita em racionamento de energia, alerta para o impacto nas tarifas e projeta problemas no setor hidráulico em até 15 anos.
“Não acredito em falta de energia, pois vamos gerar mais energia térmica para compensar e isso certamente vai encarecer o custo. Num horizonte de 15 anos, vejo sérios problemas na geração de energia das hidrelétricas. A tendência, portanto, é continuar o sistema com mais térmicas ou outras formas de energia que não sejam hidráulicas”, prevê o economista.
Amaral Filho não vê grandes problemas na distribuição de energia atualmente, pois “a demanda não cresce como ocorreria se a economia do Brasil estivesse crescendo”. Por outro lado, em relação à alta dos preços pagos pelos consumidores, o economista diz que os chamados consumidores cativos (de pequeno porte, residenciais) sofrerão mais na hora de pagar a conta do que o livres (industriais), que já têm contratos firmados e não poderiam ser alterados.
Fonte: Jornal do Brasil - 02/05/13

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