Artigo
Por Cícero Bley Jr.
Presidente CI Biogás
Representante do Brasil na IEA (Agência Internacional de Energia) - Task Force 37 - Biogas
É importante evidenciar aspectos e componentes da economia rural brasileira relacionados com energia, um fator de produção, insumo indispensável para realizar os trabalhos humanos com produtividade.
Plantar, cultivar, colher. Armazenar, preparar e transformar proteína vegetal dos grãos em proteína animal, leite e carnes e finalmente industrializar esta proteína transformando-a em alimentos implica numa sequência de operações, impensáveis se não fosse possível acessar energias, combustíveis e elétrica para realizá-las. A energia elétrica para acionamento de máquinas e motores e energia combustível na mobilidade rural em geral, dos tratores em operação nos solos agrícolas, aos caminhões que movimentam os produtos entre os estágios da produção e em seguida levando aos mercados consumidores.
O volume de recursos drenados anualmente do setor agropecuário para o setor dos combustíveis e para o setor elétrico é de dimensões assustadoras. O impacto econômico desta dependência em apenas uma unidade integradora, no caso, produção de carne de aves realizado em um abatedouro de 200 mil aves/dia é de aproximadamente 19,5 milhões de reais por ano, apenas em eletricidade e diesel para fazer rodar as suas seis fases de produção, Ao mesmo tempo a unidade joga fora o potencial energético do biogás contido na biomassa residual, dejetos animais, sólidos orgânicos e efluentes industriais.
No Brasil, os espaços territoriais são um convite aberto para a economia rural entrar no mundo das energias e com elas encontrar uma nova perspectiva econômica e junto, a sustentabilidade econômica e ambiental. Logo veremos algo mais do que silhuetas de vacas, cavalos e suínos em nossos campos. Serão instalações de parques eólicos ou solares, como também biorrefinarias utilizando biomassas residuais com alta eficiência. Instaladas em propriedades rurais, cujos donos poderão, individual ou associativamente incluir na sua lista de negócios a geração de energia. Já vem ocorrendo isto em vários países do mundo. Lá motivados pela necessidade de mudar os sistemas de geração por fontes poluentes como o carvão, ou perigosas como as nucleares. Aqui, será pela necessidade imperiosa de contar com a energia para induzir o desenvolvimento local, com possibilidades reais se obter um desenvolvimento mais próximo possível da sustentabilidade. O fato é que os espaços rurais, independentemente de se encontrarem em terras de difícil aproveitamento, ou até em terras de alta produtividade, podem incorporar outras vocações, ou dimensões econômicas (VEIGA, J E. 2004), entre elas a quase inexplorada geração de energias.
Além dos espaços territoriais, temos também condições climáticas, com sol, ventos e chuvas, ocorrendo sempre de forma exuberante, proporcionam mais eficiência energética do que em outros lugares. Assim como temos a terceira maior disponibilidade hídrica, com cerca de 12% da água livre do planeta, que nos proporciona a matriz elétrica mais limpa do mundo (EPE, 2010). Temos também 2,5 vezes mais irradiação solar do que a Alemanha, berço da energia solar fotovoltaica. Os ventos alíseos do Nordeste e os polares do Sul são mais intensos e mais estáveis do que os ventos do Mar do Norte, os melhores da Europa para a energia eólica. Mais um fator relevante e correlato com as possibilidades de geração de energia é a biodiversidade brasileira. Temos mais de 250 espécies de vegetais superiores em nossas florestas e correspondente exuberância micro fauna e flora, que asseguram grande potencial da bioenergia no meio rural. Espaço, clima, recursos de solo e água e biodiversidade, são fatores que se bem articulados e manejados tornam-se componentes essenciais de uma matriz energética renovável, própria do setor rural. A esta matriz dá-se o nome de Agroenergia - a gestão eficiente das fontes de energia, ou a segurança energética. Uma dimensão econômica importante e estruturante para o agronegócio e para a economia rural. A energia porta o futuro.
O setor sucro-alcooleiro é uma referência nisso, pois há algumas décadas escolheu a geração de energia para dar destino ao excedente da produção de resíduos, o bagaço da cana, uma escala de 140 milhões de toneladas/ano e o fez com tal eficiência que a energia elétrica que gera, integra a matriz energética com 15,7% da oferta interna de energia no Brasil (EPE, 2012). Outros setores importantes da economia ainda não perceberam essas possibilidades energéticas. Nem os maiores beneficiários da agroenergia, os produtores rurais, incluem o tema nas pautas reivindicatórias de políticas públicas.
Para não ter que considerar fontes tecnológicas como a eólica e solar, que demandariam grandes adaptações para seu uso, quatro produtos agroenergéticos, diretamente ligados à produção agropecuária e agroindustriais - o biogás, os biocombustíveis, a lenha e os recursos aquáticos, algas e aguapés. São fontes renováveis de energia e podem servir como alternativas às energias convencionais aplicadas. Pois têm potencial de suprir se não integralmente, pelo menos grande parte da demanda energética do setor. Há evidencias de grandes sinergias entre os agroenergéticos, que podem ser consideradas premissas da Agroenergia, como as características dos próprios agroenergéticos em uso integrado, a geração descentralizada (Geração Distribuída), o Geoprocessamento aplicado e a Eficiência energética.
Além disso, a agroenergia traz sempre consigo externalidades econômicas e ambientais, ou seja, além dos impactos econômicos das energias geradas, promovendo renda e induzindo a formação de cadeias de suprimentos locais de alta significância para quem pretende descentralizar o desenvolvimento. Essas externalidades podem agregar valor na formação direta dos preços a serem pagos pela energia (R$/KW/hora), acrescidas dos valores econômicos dos serviços ambientais que produzem.
Diante da importância econômica e ambiental da Agroenergia envolvendo produtores e as indústrias processadoras permitem construir uma estratégia técnica, econômica e política para o setor, cujo ponto de partida deveria ser muito diferente do absurdo comodismo de se dar um click no interruptor da parede obtendo luz subsidiada, ou no corte do mato mais próximo, ou ainda nas incontáveis idas aos postos de gasolina.
Fonte: Fronteiras da Energia - Nov/2013

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