
Ao contrário do que se previa, o uso das termelétricas vem crescendo desde o início de janeiro e disparou nos últimos dias, atingindo valores muito próximos aos verificados no mesmo período do ano passado. Naquele momento, as usinas térmicas foram acionadas emergencialmente por causa do baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas. Dessa vez, a súbita redução das chuvas nas regiões Sudeste e Centro-Oeste alterou as expectativas originais do governo e do mercado.
Na terça-feira, a geração térmica chegou a 11.557 megawatts (MW), o maior volume desde o dia 5 de dezembro. Autoridades do setor afirmam que uma das principais razões do aumento é a ampliação do horário de ponta do consumo de energia, causada pelo maior número de aparelhos de ar-condicionado ligados neste verão. Além de estar perto do recorde histórico, o pico da demanda tem sido registrado entre 14h30 e 15h, o que eleva o tempo de carga máxima no sistema.
Tradicionalmente, o horário de ponta é entre 17h e 20h, mas os registros do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) indicam uma gradual antecipação do relógio nos últimos anos. "Não deixa de ser um reflexo da mudança de hábito dos brasileiros e do aumento de renda da população", observa o presidente da Thymos Energia, João Carlos Mello.
Esse cenário será analisado hoje na primeira reunião do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) em 2014. A reunião pode definir se mais térmicas precisarão ser acionadas e por quanto tempo o sistema precisará de reforço. Na virada do ano, a expectativa do governo e do mercado era de menor uso das térmicas. As chuvas de dezembro realmente ajudaram. No mês passado, a energia afluente nas regiões Sudeste e Centro-Oeste - principal caixa d'água do país - ficou em 95% da média histórica. Logo em seguida, as chuvas diminuíram e estão em 57% da média, na primeira quinzena de janeiro.
Resultado: no Sudeste/Centro-Oeste, em vez de aumentar, os reservatórios perderam estoque no meio do período úmido. Apesar dos níveis de armazenamento mais confortáveis do que no ano passado, há quem manifeste preocupação. "Ainda precisamos de mais ou menos um mês para saber se a queda nos reservatórios do Sudeste é passageira. Mas a folga para aumento das termelétricas hoje é muito pequena para enfrentar uma eventual seca", afirma o engenheiro e consultor Humberto Viana Guimarães.
De acordo com ele, a capacidade disponível hoje para aumentar os despachos das térmicas é de 2.989 MW. Ou seja, a maior parte do parque gerador já está em uso e não sobra muita folga.
De forma geral, segundo especialistas, o cenário ainda está indefinido. A perspectiva de menores gastos com o uso das térmicas, no entanto, começa a ser vista com desconfiança. Em 2013, a geração térmica ficou em 12,3 mil MW, na média.
Na semana passada, em relatório distribuído a clientes, o J.P. Morgan fez simulações com três cenários diferentes de hidrologia. Arriscava prever, como mais provável, um cenário de "alta hidrologia" e geração térmica de 8.000 MW ao longo de 2014. Nas contas do banco, isso geraria uma despesa de R$ 6,1 bilhões, gasto inferior ao registrado no ano passado - por isso, as tarifas das distribuidoras poderiam até cair.
Na primeira semana de janeiro, sem incluir as usinas nucleares de Angra 1 e 2, o despacho térmico estava abaixo de 8.000 MW. Mas, com o calor intenso, a demanda máxima do sistema ficou muito acima do projetado pelo ONS. Entre os dias 4 e 10 de janeiro, o pico da demanda alcançou 46.614 MW no subsistema Sudeste/Centro-Oeste, um volume 7,2% superior às estimativas oficiais. A interrupção das chuvas fortes e o aumento dos preços de energia no mercado "spot" fizeram as térmicas retornar, em poucos dias, ao patamar de 11,5 mil MW de terça-feira.
Em entrevista ao Valor, nesta semana, o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, disse que a previsão orçamentária de aporte de R$ 9 bilhões na Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) não é "uma conta fechada". Na avaliação dele, a conta "pode ser menor; maior, acho difícil". Augustin explicou que o governo divulgará uma primeira expectativa de gastos no decreto de contingenciamento de fevereiro e poderá revisar os números ao longo do ano.
Fonte: Valor

TÉRMICAS NA BASE
ResponderExcluirFoi o uso intensivo de reservatórios – com térmicas à disposição – que levou à atual falta de água nos reservatórios.
Apesar de ter predominância de hidroelétricas – 70% segundo Roberto Pereira D'Araújo do MME) as usinas geram 90% da energia e apenas metade da sua capacidade térmica. Se as térmicas tivessem entrado em operação antes – ou melhor, se nem fossem desligadas antes de outubro – a situação hoje seria outra. Hoje as usinas são contratadas por disponibilidades. Ficam paradas à espera de um chamado do ONS. (Luiz Pinguelli Rosa).
Na hipótese mais remota de que os reservatórios se encham complemente as térmicas permanecerão ligadas, mesmo que haja vertimento. Por mais estranho que possa parecer, vertimentos de água são inevitáveis: reservatórios não são construídos com este propósito. Ademais são muito poucas as térmicas que poderiam ser substituídas e os benefícios seriam decrescentes quando as térmicas funcionam como complemento. Isto é o que caracteriza a fase de complementação. Este é o papel da termoelétricas: complementar hidroelétricas no período seco, função que os reservatórios não conseguem mais preencher.
Mas, com térmicas ligadas de forma permanente já é uma fase mais avançada. Qualquer tentativa de desligar térmicas leva ao risco da repetição de outro verão de poucas chuvas, segundo alertam os técnicos.
“Térmicas não poderiam nem deveriam ter sido desligadas.”
Terminado o verão, as térmicas disponíveis não serão suficientes e hidroelétricas terão de ser religadas qualquer que seja a situação. O sistema não pode abrir de nenhuma alternativa, especialmente as térmicas a gás – na forma combinada – que concorrem para a maior eficiência no uso final da energia ao reduzir o consumo de carvão e óleo nas antigas caldeiras a vapor que não precisam ser se desativadas.
“O professor da Coppead, Nivalde Castro, vai além: algumas térmicas precisariam gerar na base, sem parar. Hoje as usinas são contratadas por disponibilidades. Ficam paradas à espera de um chamado do NOS”. A quantidade de água nos reservatórios não é mais suficiente.
postado por hugo siqueira, cabo verde mg | 23/03/13 17:47
RACIONAMENTO
ResponderExcluirO país enfrenta uma combinação perfeita de condições que podem levar ao racionamento de energia. Os apagões só não acontecem devido ao baixo crescimento do PIB, especialmente da indústria.
Pior seria se o governo não tivesse tomado medidas preventivas.
Aumentou a participação de térmicas, funcionando na base do sistema e construiu linhas de transmissão interligando usinas distantes. Mas apesar das medidas tomadas a energia proveniente de térmicas não foi suficiente para impedir o esvaziamento dos reservatórios que ameaçam repetir a mesma condição do ano passado.
Apagões não tem uma causa única. O que torna o momento particularmente relevante é a ocorrência de vários eventos simultâneos de risco, como:
– 2 verões sucessivos de pouca chuva, quentes e secos.
– Aumento explosivo do consumo de aparelhos elétricos e eletrodomésticos pela nova classe “C” emergente, devido aos estímulos ao consumo de aparelhos nacionais e importados.
– Baixa de 20% nas tarifas que acabou incentivando o consumo em um momento impróprio.